Preparação para Concursos Públicos e ser Número 1 no Enade
A Folha de São Paulo no último domingo (06/06/10) publicou matéria com o título “Vida de número 1”. O texto relata o fato de que o jornal teve acesso à lista dos 48 primeiros colocados no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) – voltado à avaliação do Ensino Superior por parte do MEC, e abordava as características semelhantes a alguns dos que figuram no rol dos mencionados alunos de elite. Diante das informações e semelhanças apontadas, de maneira muito espontânea, natural e quase automática, comecei a promover reflexões e analisar a relação entre as referidas características e o processo de preparação para concursos públicos.
Neste sentido, um primeiro esclarecimento necessário, consiste no fato de que todas as semelhanças guardam proximidade com aspectos vinculados à preparação para o concurso publico, os quais tenho desenvolvido e abordado no trabalho de orientação aos candidatos. Registro que o referido conteúdo de orientação envolve não apenas a reflexão e análise a partir de elementos empíricos – considerando a minha experiência de candidato e professor de cursos preparatórios, inclusive acompanhando muitos alunos, mas também agregando construções estabelecidas nos campos do conhecimento voltados ao desenvolvimento de modelos de gestão, bem como os direcionados ao estudo, de forma científica, dos processos de aprendizagem humana.
Assim, dentre os elementos semelhantes no roteiro de vida acadêmica dos alunos que ocuparam os primeiros lugares do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, conforme apontado na matéria jornalística mencionada, “apesar das características diferentes, seguem uma cartilha de condutas em comum que os levou ao topo do ranking do Enade: não estudam somente nas vésperas das provas, tiram as duvidas durante as próprias aulas e, principalmente, são apaixonados por seus cursos” (Folha de SP, pág C6, 06/06/10).
Diante do referido relato, podemos sistematizar e reunir estas características em basicamente dois grupos:
1 – não estudam não véspera de prova; portanto, estudam regularmente e provavelmente na medida em que avança o conteúdo ministrado pelo professor em sala;
2 – têm paixão pelos campos do conhecimento com os quais trabalham.
Considerando tais características e refletindo sobre os eixos conceituais que venho trabalhando, os quais envolvem o planejamento da preparação, a aprendizagem e a gestão das condições emocionais, entendo que as atitudes dos referidos alunos se relacionam com três aspectos fundamentais, os quais inclusive já foram objeto de textos trabalhados no Blog, e correspondem aos seguintes:
- trabalhar o prazer em aprender;
- a abordagem da aprendizagem de significados;
- a mobilização de memórias de longo prazo.
O primeiro conceito envolve a importância de que o candidato trabalhe o prazer em aprender na preparação para o concurso público. Conforme havia destacado em texto específico sobre o tema, estruturado inclusive com base em construções estabelecidas por um segmento das ciências da aprendizagem denominado matemática emocional, tal conceito deve envolver ter três grandes preocupações.
A primeira consiste na compreensão de que a preparação para o concurso público conta com dois objetivos fundamentais, ou seja, um mediato e outro imediato. O objetivo mediato consiste na aprovação, o que corresponde ao fim maior. Já o objetivo imediato consiste na apropriação do conjunto de conhecimentos e informações passíveis de cobrança no momento da prova. Portanto, a preparação para concursos públicos consiste, efetivamente, num intenso processo de aprendizagem.
E assim, a segunda idéia a exigir a compreensão consiste no fato de que o ser humano foi feito para aprender. Ou seja, aprender trata-se de uma atividade inerente à natureza humana, relacionada inclusive uma lógica evolucionista. Andar, por exemplo, consiste numa habilidade que se aprende e alguns de nossos ancestrais não a tinha. Dessa forma, aprender é algo inerente à nossa natureza, sendo que, ao nos prepararmos para um concurso, estamos a fazer algo mais do que natural.
Uma terceira idéia a ser entendida consiste na necessidade de busca e compreensão de sentido e importância do objeto de estudo. Em tese, geralmente, todas as informações relacionadas ao programa do edital contam com alguma importância e sentido. Seja para o exercício da função pública que pretendemos exercer, seja para o nosso dia a dia enquanto cidadãos. Portanto, o candidato deve se empenhar para buscar a compreensão do sentido daquilo que estuda.
Tudo isto de modo a encontrar e trabalhar o prazer em apreender.
Inclusive, este terceiro conceito mencionado se relaciona com a idéia da aprendizagem de significados. Vale registrar que, conceitualmente, em termos psicopedagógicos, temos a aprendizagem mecânica e de significados. A primeira envolve a apropriação da informação sem compreensão de sentido, ao passo que no segundo modelo procuramos entender o sentido e a lógica da informação trabalhada. Costumo afirmar em palestras e oficinas sobre o tema da preparação para concursos públicos que geralmente sabemos a primeira estrofe do hino nacional decorada, mas dificilmente temos o mesmo domínio sobre a história que está relatada por trás do referido trecho.
Não tenho duvida de que, ainda que inconscientemente e de forma não deliberada, os alunos dos primeiros lugares do Enad não apenas trabalhavam com o prazer em aprender, mas também, por outro lado, rejeitavam o modelo de aprendizagem mecânica.
Segundo a mencionada matéria, o aluno Pedro Naves, que concluiu o curso de Biologia na UnB e faz parte do aludido grupo, fez a seguinte afirmação: “Estudava porque eu gostava, para entender, não para passar”. Isto diz muito!
Outra idéia importante consiste na compreensão de que, ao evitar este estudo de véspera, o aluno não estaria trabalhando com memórias de curto prazo, o que geralmente ocorre diante da referida modalidade de estudo. Assim, tais candidatos, ao procurar desenvolver os estudos individualmente e regularmente, inclusive em sintonia com as aulas, estariam mobilizando duas modalidades de processos cognitivos em momentos próximos (as aulas e o estudo individual), o que tenderia a facilitar o trabalho com memórias de longo prazo.
Seguramente, tais candidatos não são seres humanos extraordinariamente diferentes dos seus colegas, ao menos em termos de capacidade cognitiva. Tais alunos apenas seguiram um caminho mais eficiente em termos de apropriação da informação. Mais eficiente e de menor desgaste.
Aliás, um dado interessante, conforme relatado na matéria, é que muitos foram considerados alunos medíocres durante o ensino médio. Ou seja, a questão não é de capacidade cognitiva. A questão é como estudar!
Faço votos de que tais alunos, resolvendo seguir alguma carreira pública, tenham êxito nos concursos públicos que prestarem, bem como sejam exemplo para os demais candidatos!!!
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